A Ala dos Esquecidos

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Era fã do velho provérbio olho por olho, dente por dente, para o horror daqueles com quem convivia. Não era uma questão de perversidade como poderia parecer, mas de justiça. A educação dada pelo pai traduzia-se nos tantos ditados proferidos por ele. Para qualquer situação, ele sempre tinha um na ponta da língua.

Outra coisa que acreditava piamente, apesar da orientação evangélica que recebera durante toda a vida, era que céu e inferno eram aqui mesmo. E arriscava-se no palpite que muito mais inferno do que céu. Por isso, não esquecia nunca de que aqui se faz, aqui se paga.

Difícil era julgar ou compreender isto, principalmente se a história era desconhecida ou o convívio inexistente.

Ao assistir o programa Caçadores de Nazistas, enchia-se de compaixão por aqueles senhores de cabelos brancos que tentavam levar uma vida comum, por vezes, bastante simples, no interior de qualquer país, sem conseguir imaginar que aqueles mesmos velhinhos, de aparência indefesa, foram algozes de milhões de judeus – homens, mulheres e crianças de todas as idades.

Agora, naqueles corredores, onde misturavam-se os cheiros de remédios e de sabonetes que as senhorinhas usavam, com um barulho constante de um aparelho de ar condicionado que mais atordoava do que refrigerava, ela se questionava sobre o velho ditado, a fim de saber o que mais fizeram além de simplesmente envelhecerem.

Caminhava por ali com certa intimidade. Uma intimidade pretensiosa. Futuro. Pensamentos estavam sempre a rondar sua mente enquanto observava ao seu redor.

Por raríssimas exceções, poderia ser considerada a Ala dos Esquecidos.

A porta em frente à escada ficava sempre aberta. Alegara defeito na campainha. E assim cumprimentavam-se sempre com rápidos acenos, sempre entre sorrisos.

Ela a chamou na primeira vez. Para acender a luz. Pediu com delicadeza o favor. Verificar a temperatura do mingau que recebera. Já estava morno. Mas antes que pudesse entregá-lo, alguém da família chegou. Finalmente, quando o dia já era noite. Depois de um domingo ensolarado, ir até lá certamente traduzia-se na obrigação do dia. Quiçá chateação.

Esqueciam-se todos que envelheceriam também. E que da mesma forma poderiam não ser a prioridade daqueles que cuidaram um dia. Aqui se faz, aqui se paga. Silenciou tristemente.

Na segunda vez percebeu o quão miúda era ela. Aguardava mais uma vez o mingau, ainda em temperatura elevada. Pediu uma ajuda mínima. Elogiou já querendo saber o horário do turno dela. Ela riu. Explicou. Apenas visitava a paciente do quarto ao lado.

Ao menos por enquanto, pensou.

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